Velhinho. Um dia você vai ser um: Os Abrigos dos Velhos e das Crianças em Cuiabá

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Sede do SENAI/PORTO, no ano de 2011, construída no lugar onde havia o casarão do Abrigo Bom Jesus. [Imagem: Google Earth]

CUIABÁ/MT – Até metade da década de 2000 [2005], do século 20, existia em Cuiabá dois tradicionais casarões antigos onde funcionaram duas das mais respeitadas instituições filantrópicas da Capital: o ABRIGO BOM JESUS, onde eram recolhidas crianças e idosos em situação de vulnerabilidade. Um dos abrigos, o dos velhos funcionava em um casarão na esquina da Rua Antonio Caitano Santana com a Avenida XV de Novembro, que não existe mais. Em 2005, foi demolido e no lugar foi erguida a suntuosa sede do SENAI/PORTO. A instituição mudou-se para um terreno nas proximidades da Avenida Historiador Rubens de Mendonça, a famosa Avenida do CPA, doado pelo Governo do Estado. 

O ABRIGO DOS VELHOS E O GRUPO ESCOLAR JANUÁRIO RONDON

Em 1º de fevereiro de 1940, com dinheiro arrecadado de contribuições de amigos e da sociedade, $ 50 contos de réis, dona Maria de Arruda Muller, fundou a instituição ABRIGO BOM JESUS. Atualmente a entidade mantém 44 homens e 53 mulheres na faixa etária de 60 a 109 anos.  

A fundação Abrigo Bom Jesus interage com a sociedade de forma continua, atenta aos anseios e necessidades da comunidade, ampliando cada vez mais sua atuação. Sua inserção no contexto regional consolida pelo atendimento à demanda de prestação de serviços e assistência social direcionado a idosos e crianças”, Seção “Quem Somos” no site da fundação.

Lembro-me, com muita saudade, da época em que essas duas instituições eram referência social em Cuiabá. Quando no final da década de 1960, começo da década de 1970 [1970/1971], Eu, ainda menino, estudava no Grupo Escolar Januário Rondon, bem pertinho desse casarão que abriga o Abrigo dos Velhos, na Avenida XV de Novembro, onde atualmente funciona a sede da União das Associações de Moradores de Bairro/UCAMB e, todos os dias de manhã passava pela calçada desse casarão e via nas janelas enormes, debruçados no parapeito, velhinhos observando o movimento das pessoas na rua.

Atual sede da UCAMB, onde funcionou o Grupo Escolar Januário Rondon. [Imagem: Google Earth]

Eu e a maioria de meus colegas da escola Januário Rondon, tínhamos muito respeito por esses velhinhos [havia as exceções, claro, de crianças que não respeitavam], mas a grande maioria tinha o maior carinho pelos velhinhos, aliás, esse era o costume na época: O RESPEITO AOS MAIS VELHOS [coisa que acabou após a implantação do maldito Estatuto da Criança e do Adolescente/ECA], nos dias atuais, é raro um dia que não se veja ou ouça uma notícia de filhos que agridem os pais, isso quando não os matam, o que acontece com frequência. Tínhamos, por hábito, pedir a benção aos velhinhos [uma das poucas frustações que tenho na minha vida, é não ter conhecido meus avós, nem os maternos, nem os paternos e, pior ainda, tenho um casal de filhos de 34 e 36 anos que nem pensam em casamento, ou seja, também não irei conhecer netos], acho que eu procurava nas figuras dos velhinhos do abrigo, meus avós.

Lembro que havia um senhor negro, muito escuro mesmo, que usava uma camisa branca e um quepe parecidos com os de marinheiros. O nome dele era Nestor e não era muito velho, pelo que me lembro dele, não devia ter mais de 45 anos na época. Tinha um outro senhor, baixinho e com os lábios bem proeminentes, que a gurizada apelidou de Bico de Pato. Também não era de muita idade, acho que tinha menos de 50 anos. Tinha uma senhorinha, que vi dias atrás, foi capa de um livro sobre a instituição. Eu a conheci, já estava no abrigo naquela época, começo da década 1970. Aliás, essas três figuras cerca de cinco ou seis anos, assisti uma reportagem de um canal de TV aqui da capital que falava das dificuldades financeira porque passava a instituição e os reconheci nitidamente. Eles passaram a vida deles dentro dessa instituição filantrópica, que pouco ou nenhuma atenção tem por parte do poder público Federal, Estadual e Municipal.

Na época em que estudei no Grupo Escolar Januário Rondon, havia uma data especifica em que podia-se visitar as dependências do abrigo, não lembro qual data era. As pessoas levavam roupas [novas ou usadas], calçados doces e biscoitos e, eles ficavam muito felizes. Eu, ficava muito frustrado nesse dia. Aos alunos era permitido fazer essa visita também, acompanhados de professoras. Nós podíamos também dar presentes aos velhinhos, porém, todas as vezes [acho que duas ou três] minha mãe só me dava um sabonete para levar. Eu ficava triste, pois queria levar algo maior e mais caro, porque não entendia que naquela minha família ainda não tinha orçamento folgado, como ficou alguns anos depois, mas eu já não estudava mais no Januário Rondon. Nos dias atuais, Graças à Deus posso doar um pouco mais, porém, já não tem a mesma graça que tinha naquela época.

O terreno que abrigava o casarão onde foi o Abrigo dos Velhos era enorme e ao lado havia outro terreno quase do mesmo tamanho, onde havia uma imensa horta que ficava entre o casarão que era o abrigo e a casa do advogado Doutor Corbelino. Essa horta imensa, ia da Avenida XV de Novembro até as margens do córrego Prainha e tinha de tudo que pensasse em matéria de verduras e legumes. Era a mais famosa e mais procurada de Cuiabá. A sede do SENAI ocupou os dois terrenos. A casa do Doutor Corbelino também não existe mais, em seu lugar foi construído um prédio de uns dez andares, eu acho.

Minha família nessa época, morava na rua Major Gama, no pico do Morro do Tambor. Tinha duas opções para chegar até ao Januário Rondon. Uma, descendo a rua Major Gama até à rua XV de Novembro e segui em direção ao bairro do Porto, até a sede da escola. A outra, que era a minha rota preferida era descer a rua Major Gama até a rua São Cristóvão, caminhar nessa rua até a rua Vitorino Miranda, pegar a rua Antonio Caitano Santana, passar em frente ao abrigo, pegar a Avenida XV de Novembro e chegar na escola. Gostava desse trajeto, porque a maioria dos colegas moravam no Barcelos e na Várzea Ana Poupino e a gente já ia fazendo bagunça até a escola.

O ABRIGO DAS CRIANÇAS E O COLÉGIO DOS PADRES

Antigo prédio onde funcionou o Abrigo das Crianças. [Foto: Francisco das Chagas Rocha]

Já o casarão que abriga o Abrigo das Crianças existe até aos dias atuais, porém atualmente está sob os cuidados do Projeto Casa da Criança:

Quem Somos                                                                                      O Projeto CASA DA CRIANÇA é uma organização com reconhecimento Federal, qualificada como OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), que defende os direitos das crianças e adolescentes em território nacional através de ações que vão desde reformas e construções a ações de interesse nacional que primam pela qualidade do atendimento a exemplo do Programa CIA DOS ANJOS (que fortalece as unidades após as intervenções). Também trabalha para a influência nas políticas públicas cobrando junto aos governos suas responsabilidades para com a infância e na melhoria do atendimento ao câncer infantil.

Seja bem-vindo a fazer parte de uma das ações do Projeto CASA DA CRIANÇA!

Como nasceu o Projeto Casa da Criança

Com o objetivo de desenvolver um trabalho social e beneficente para crianças, os arquitetos Patrícia Chalaça e Marcelo Souza Leão reuniram, em 1999, arquitetos e decoradores no Recife (PE) e promoveram o Projeto CASA DA CRIANÇA.

História

Desde 1999 transformando sonhos em realidade.

Desde a realização da ação no abrigo público Casa de Carolina, no Recife (PE), onde atuaram 60 arquitetos e decoradores, 27 construtores e mais de 500 empresas beneficiando 100 crianças, o Projeto vem sendo referência em outros Estados. Hoje, o Projeto CASA DA CRIANÇA está presente em 15 estados brasileiros (mais o Distrito Federal), em todas as regiões do país. São mais de 3 mil arquitetos e decoradores, 1500 construtoras e 30 mil empresas que participam do CASA DA CRIANÇA, contribuindo com a transformação de abrigos, creches, espaços para adolescentes, atendimento ao câncer infanto-juvenil e portadores de necessidades especiais. São mais de 200 mil crianças e adolescentes atendidos nas mais de 50 instituições beneficiadas”. Extraído do site Projeto CASA DA CRIANÇA.

Eu estou falando da época em que eu era criança, começo da década de 1970, fazia muito tempo que tinha noticia alguma dessa instituição, somente agora, pesquisando para escrever este texto é estou sabendo que o local está sob responsabilidade desse projeto, que pelo que se lê é de Recife, nem de Cuiabá é. O casarão que abrigava o antigo Abrigo Bom Jesus, está localizado na Avenida Dom Aquino [antiga Rua dos Pescadores e Rua Nova] e fica ao lado da Escola Estadual Modelo Barão de Melgaço e do outro lado fica o Colégio Liceu Cuiabano, popularmente conhecido como COLÉGIO DOS PADRES.

Colégio dos Padres e Abrigo das Crianças. [Imagem: Google Earth]

Minhas lembranças não são muito boas, são parte de minha adolescência rebelde. Como praticamente todos jovens de Cuiabá da década de 1970 e 1980, junto com meus irmãos de mais idade, frequentei o Colégio dos Padres todos os domingos como era hábito de crianças e jovens daquela época. Essa instituição religiosa/educacional, nos domingos abria suas portas para crianças, adolescentes e jovens daquela época entre as 08h00 e 17h00. Lá havia três campos de futebol [para construir o Ginásio de Esportes, acabaram com dois campos], uma quadra de futebol de salão, vários brinquedos [Chapéu Mexicano, Gangorra, balanço] e brincadeiras [Ping Pong; Pinos Ball; Pebolim; Xadrez; Dama; Dominó e de cartas (Pife e Rouba Monte) etc.]e, claro, o cinema. Eram exibidos filmes de época [sobre o Império Romano, sobre Jesus Cristo, terror clássico (Drácula, Lobisomem, Frankstein…), faroeste italiano e comédias: Charles Chaplin, Oscarito, Os Três Patetas, O Gordo e o Magro, Tarzan e Jim das Selva.

Quanto ao Abrigo das Crianças, havia, acho uma rivalidade das crianças internas que não podiam sair para brincar fora da instituição, como nós que frequentávamos o Colégios dos Padres. Na época, a instituição não tinha muro de alvenaria, como atualmente, era cercada por arame farpado. Nós passávamos pela beira da cerca e se fossemos provocados pelos meninos internos, nós os provocávamos. Aí era guerra de pedras. Naquele tempo a rua ainda não era pavimentada e sim calçada e havia muitas pedras soltas pelo chão.

Fachada atual do prédio onde funciona o Projeto Casa da Criança. [Imagem: Google Earth]

Tal qual acontecia no Abrigo dos Velhos, no Abrigo das Crianças, também havia um dia aberto à visitação onde os internos podiam receber as pessoas levavam roupas [novas ou usadas], calçados doces e biscoitos e brinquedos. Era o dia 12 de outubro, o Dia das Crianças.

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