O FUTEBOL ESTÁ DOENTE

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Torcedor argentino, Emanuel Balbo, morreu ao ser envolver em confusão e ser atirado do alto das arquibancadas. [Reprodução]

MARILIZ PEREIRA JORGE – Quatro fatos negativos chamaram a atenção no noticiário sobre futebol esta semana [17 a 23.04.2017]. O fuzuê em torno da atitude do jogador Rodrigo Caio, que livrou o adversário Jô de um cartão Amarelo e da suspensão. Os negócios da CBF com um empresário indiano, acusado de corrupção. A confirmação do Sport como o único campeão do Brasileiro de 1987. A morte do torcedor argentino, atirado da arquibancada durante um jogo.

O futebol está doente, disse Raul Balbo ao repórter da Folha Alex Sabino, sobre a morte de seu filho Emanuel. Ele tem razão e sabe que sua afirmação não se resume apenas a sua tragédia pessoal. Basta olhar o noticiário para concordar com Balbo.

Percebemos que o futebol está doente quando a atitude apenas correta de um jogador se torna o assunto mais discutido em mesas redondas. Provoque bate bocas entre comentaristas, transforma o atleta em herói. Herói criticado pelo técnico do time, ex-goleiro endeusado pela torcida, mas que, segundo testemunhas, entrou no vestiário dando chutes em objetos, distribuindo broncas, por que seu zagueiro não se aproveitou da situação. Estamos em 2017, e não conseguimos nos livrar da Lei de Gerson.

Percebemos que o futebol está doente ao saber que estava nas mãos do STF (Supremo Tribunal Federal) uma pendenga judicial para decidir sobre o campeão Brasileiro de 1987. Amigos, 1987. O país se despedaçando, 13 milhões de desempregados, a classe política inteira na lama e cinco juízes da mais alta corte do país discutindo se o Flamengo pode dividir o título com o Sport. Em respeito a esse espaço, não escreverei o que gostaria, então, vai apenas um “dane-se” o campeão brasileiro de 1987.

Percebemos que o futebol está doente quando a morte do argentino Emanuel, atirado do alto de uma arquibancada, e de todos os torcedores, sejam eles brasileiros ou paraguaios, espancados, mortos a tiro, paulada, rojão, apenas entrem para as estatísticas sem que haja comoção, sem que os agressores sejam punidos e banidos dos estádios. Não percebemos que a morte de Emanuel e e todos os envolvidos em brigas são ainda mais trágicas do que o acidente que matou 71 pessoas no voo que levava a equipe da Chapecoense, porque ela se repete ad aeternum e não muda nada.

Percebemos que o futebol está doente de forma irremediável quando dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) sambam na cara da sociedade com honras a um empresario gringo acusado de enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro e recebimento de propina em seu pais, os mesmos crimes de que são acusados Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero. Pelo menos assunto não vai faltar.

O indiano Lalit Modi foi ciceroneado por Teixeira em pontos turísticos do Rio e litoral fluminense, com aquela típica ostentação de quem não sofre pela falta de dinheiro: helicóptero, lanchas, hotel de luxo. E depois foi recebido pela cúpula da CBF. Casa Bandida do Futebol, como a CBF vem sendo chamada, faz jus ao nome, inclusive internacionalmente. Lalit parece não ser muito benquisto pela mídia indiana pudera, vive em Londres e não pode voltar a seu país. Como se não bastassem os velhos bandidos, ainda temos que lidar com o novos.

Que cansaço ter que falar dessa gente. Que desanimo tudo isso. O futebol está doente e a infecção parece generalizada.

*Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, Pagina B3 do dia 22.04.2017

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