O futebol amador do Vale do Rio Cuiabá na sua época de ouro, as décadas de 1970/80 e 90

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Nos áureos tempos quando o futebol era feito com amor à camisa e pela simples paixão de fazer aquilo que mais se gostava, para os dias atuais, aparelhado por organizações criminosas e aproveitadores de plantão que usam o esporte em beneficio próprio e nada mais

CUIABÁ/MT – Houve em Cuiabá num passado recente, entre as décadas de 1970 e 1990, um período em que o futebol, tanto o amador quanto o profissional, eram os principais motivos de lazer das famílias do Vale do Rio Cuiabá. Uma época em que a Capital do Estado de Mato Grosso era carente de áreas de lazer para seus habitantes e os “bailes“, os cinemas e o futebol, eram as únicas diversões.

OS BAÍLES OU PIQUINIQUES [PIC NIC]

Na acima citada, 1970 – 1990, era costume em todo o Vale do Rio Cuiabá, as famílias realizarem em suas próprias residências as comemorações de aniversários, especialmente os de 15 anos das filhas, casamentos, festas religiosas, onde reuniam-se familiares, vizinhos e amigos de perto ou de longe para essas confraternizações, costumes estes que foram abolidas do cotidiano dos cuiabanos na década de 1990, quando as turmas de bairros foram aparelhadas pelo crime organizado e passaram a ser ameaças à integridade física tanto das famílias, quanto de seus bens móveis ou imóveis.

Havia os “bailes” propriamente dito, que eram realizados apenas no período da noite, entre as 19h00 e 00h00 e os “piqueniques” que duravam praticamente o dia todo. Começavam por volta de 09h00 e estendiam-se até as 00h00, impreterivelmente. Horário este, estabelecido pelos pais, para seus filhos estarem em casa deitados em suas camas. Os piqueniques tinham na maioria das vezes, cunho de ação social, pois eram realizados em beneficio de alguém ou de alguma entidade sem fins lucrativos. No antigo bairro do Morro do Tambor, eram realizados para arrecadar fundos em favor do time da Associação Atlética Ponte Preta, o xodó dos moradores, em particular na década de1970, para bancar custos com o transporte para jogar fora do bairro, lavagem e compra de uniformes.

Esses bailes eram, naquela época, até meados da década de 1980, animados com som mecânico, através de Sonatas Rio que funcionavam à pilhas ou com energia elétrica e eram utilizados discos de vinil. Na segunda metade dessa década apareceram os sons digitais, à principio, os CDs [Compact Disc Laser e os DVDs [Digital Vídeo Disc] e foram evoluindo até ao que vemos nos dias atuais. No Morro do Tambor, algumas pessoas de destacaram na arte de tocar musicas e foram sonoplasta famosos [hoje diz-se Djs ou MCs no caso dos funkeiros] como Pedrinho [irmão de seo Mauricinho], Reginaldo, mais conhecido como “Gomba” e Zé Luís Salgado, famoso “Zé Lampinha“, no Morro do Tambor. Foram também famosos, os bailes nas comunidades ribeirinhas de Cuiabá e Várzea Grande como o Valo Verde, Bocaina, Barão de Melgaço, Engenho Velho, Bonsucesso, Souza Lima, Pai André…

OS CINEMAS EM CUIABÁ

As décadas de1970 e 1980 foram o “auge” dos cinemas na Capital. Tínhamos o Cine São Luiz, na Avenida XV de Novembro, no bairro do Porto, que era onde o povão dos bairros mais periféricos iam curtir a “telona“, o Cine Teatro Cuiabá, na Avenida Getúlio Vargas, o Cine Bandeirantes, na Rua Pedro Celestino que eram frequentados por cuiabanos de classe média e o Cine Tropical, que era um luxo só. Esse era caro e só os mais abastados, podiam frequenta-lo normalmente. Alguns pessoas quanto possuíam algum dinheiro a mais, também iam lá, mas apenas pela curiosidade de saber como era por dentro, aquele lugar tão famoso em Cuiabá. Eu, por exemplo, tenho poucas lembranças do lugar, pois só entrei duas vezes naquele local que deixava a gente deslumbrado com tanto luxo e também porque eu era menino ainda, 13 ou 14 anos.

FUTEBOL, A ALEGRIA DE UM POVO

Apesar de o futebol ter sido invenção dos ingleses, o Brasil tornou-se mundialmente conhecido como “O país do futebol“. Somos a única nação a ter conquistado cinco vezes a COPA DO MUNDO DE FUTEBOL [1958, 1962,1970, 1994 e 2002], o brasileiro Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, foi mundialmente aclamado “Rei do Futebol“, ou seja, o maior jogador de futebol da história. Por mais de 50 anos, o estádio Mario Filho, o Maracanã, no Estado do Rio de Janeiro, foi o “Maior estádio do mundo“, cujo maior publico registrado oficialmente foi de mais de 187 mil pessoas, em jogo pela eliminatória da Copa do Mundo de 1970, porém, a antiga imprensa brasileira afirma que haviam mais de 200 mil pessoas no Maracanã naquele dia. Recorde que jamais será quebrado, pois nenhum estádio no mundo tem essa capacidade de publico.

Também uma enquete realizada pela revista esportiva Placar, na década de 1980, com mais de 150 jornalistas do mundo todo, foi escalada a Seleção dos melhores jogadores de todos os tempos até aquela data, onde foi escolhida uma seleção considerada a melhor da história: Yashin [URSS]; Djalma Santos [Brasil], Bobby Moore [Inglaterra], Beckenbauer [Alemanha] e Nilton Santos [Brasil]; Bobby Charlton [Inglaterra], Cruyff [Holanda] e Pelé [Brasil]; Garrincha [Brasil], Di Stefano [Argentina] e Puskas [Hungria]. Apenas o Brasil teve quatro jogadores escolhidos. Além de tudo isso, o futebol brasileiro ainda produziu a geração maravilhosa de jogadores que disputaram a Copa do Mundo de 1982, com Oscar, Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico, Éder e ainda Romário, Rivaldo, os dois Ronaldos [Fenômeno e Gaúcho], Kaká, Dener [Portuguesa].

O FUTEBOL AMADOR DO VALE DO RIO CUIABÁ

Claudio Kiésqui [Reprodução/Redes Sociais]

Por volta de 1976, o radialista Claudio Kiésqui fundou o programa AMADORISMO NO AR, que era apresentado pela Rádio Cultura, depois pela Radio A Voz do Oeste e quando deixou de ser apresentado cerca de cinco anos atrás, podia ser ouvido pela Radio Industrial de Várzea Grande, em horário nobre nas noites de terças e quintas-feiras. Teve uma passagem também pela televisão. Essa criação de Claudio Kiésqui foi responsável pela época de ouro do futebol amador no Vale do Rio Cuiabá. Kiésqui teve uma “tirada de gênio” ao criar um sistema de marcação de jogos por carta. Funcionava assim: Os dirigentes de times do futebol amador, mandavam cartas ao Programa solicitando que marcasse um partida para determinado bairro ou comunidade ribeirinha e Kiésqui intermediava a marcação da partida. Ou então a pessoa que mandava a carta já indicava o lugar onde queria jogar, por exemplo: Marca um jogo para nós em Valo Verde.

A ideia deu tão certo, e o numero de jogos cresceu de uma maneira que foi necessário a criação do TABELÃO DA SEMANA, dentro do Programa Amadorismo no Ar. O Tabelão era lido na sexta-feira e assim os times ficavam sabendo onde e com quem iriam jogar. Naquela época ainda não havia internet e nem celular [década de 1970]. Esse programa esportivo voltado para o futebol amador, ficou no ar por exatos 40 anos [1975 – 2015], sendo, talvez o mais longevo da história do rádio cuiabano. O programa evoluiu e migrou do rádio para a internet,  continuando ativo no site: www.amadorismonoar.com.br, de propriedade de Thiego Poli, filho e sucessor de Claudio Kiésqui.

Leãozinho -Time amador do bairro Planalto nos anos da década de 1990 – Foto Craques do Rádio

Na época de ouro do futebol amador, cada bairro ou time tinha seu próprio campo. Na década de 1990 a Prefeitura de Cuiabá criou o Projeto dos Minis estádios e simplesmente acabou com os campinhos que havia em toda Cuiabá e em Várzea Grande. Ela [a Prefeitura] apenas constrói um mini estádio onde já existia um campinho, mas depois não dá manutenção e o espaço fica abandonado e o dinheiro publico [muitas vezes superfaturado] investido é desperdiçado. O campinho que era muito bem cuidado pelo time que o utilizava, ao ser transformado em mini estádio, passa a ser da população e de responsabilidade da Associação de Moradores que na maioria das vezes não dá a mínima para aquele espaço de lazer.

Dessas boas épocas ficam as recordações e lembranças de grandes jogos e de grandes torneios ou campeonatos disputados geralmente com presença de grandes públicos. No antigo bairro do Morro do Tambor, atualmente, bairro Dom Aquino, havia nessa época da qual o texto fala, dois campos. O Campo do Morro do Tambor, que era localizado na esquina da Rua Major Gama com a Rua Doutor Miguel Melo e o Chapuletão, que ficava no final da Rua Fernando Ferrari, nos fundos do Cabaré de Timóteo. E havia três times. Os conhecidos Ponte Preta e Goiás e o Alencastro, fundado por Benedito Sampaio, que teve vida curta. Ainda na Região do bairro Dom Aquino havia o Campo da PROSOL [atual mini estádio da PROSOL]; Ralinha ou Campo do Coronel [atual Complexo Esportivo Manoel Paulo de Souza] e o mais que famoso Campo da Juventude [atual mini estádio Benedito de Sá Barreto]. Havia também na Cruzinha um campinho de terra batida em frente à Igreja de São José Operário, onde no local foi construída a praça com o mesmo nome que a igreja católica e havia também os times do Botafogo, Lavrinha e G.E.U.D.A [Grêmio Esportivo Unidos do Dom Aquino] e ainda na região da Cruzinha, havia também os times Vasco da Gama da Rua Pedro Dorileo. O Real Madrid da Várzea Ana Poupino e o Barcelos, havia o Grêmio do Barcelos.

GOIÁS ESPORTE CLUBE DE SEO DEMÉZIO -1977 – NO CAMPO DE VIRGILINO

No antigo bairro Aldeia, na região do atual bairro Dom Aquino, existe um dos times amadores a mais tempo em atividade no futebol amador de Cuiabá, o Clube Esportivo Ouro Verde fundado em 1969. O Cruzeiro de Sá Barreto que era mandante de jogos no Campo da Juventude e depois veio a tornar-se América Futebol Clube e a Associação Esportiva Cuiabá. Temos ainda times tradicionais como o Internacional e Novo Mato Grosso do bairro do Areão; Esperança do bairro do Poção; Coxipó Esporte Clube, do bairro Pico do Amor; o Nacional, do bairro Despraiado; Corumbaense, do bairro do Baú Sereno; Boa Vista, Araçatuba e A. A. Lixeira, todos desse tradicional bairro de Cuiabá. Palmeiras, da Curva da Linha; Atlântico do bairro São João dos Lázaros; Liga da Justiçado bairro Pedregal; Real Madrid, do bairro CPA I; Estrela, do bairro, Bela Vista; Palestino, do bairro Tancredo Neves; Leãozinho, do bairro Planalto; Chacororé e Três Estrelas de Barão de Melgaço; Atlético de Souza Lima; o Olaria do bairro Pirinéu, o Independente, do bairro Alameda e o Náutico, do bairro Jardim Gloria, estes quatro, em Várzea Grande.

ASSOCIAÇÃO ATLÉTICA PONTE PRETA – MORRO DO TAMBOR – NO CAMPO VIRGILINO [TERCEIRO]
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