Morro do Tambor/Dom Aquino – Pessoas que são sempre lembradas: Os velhinhos transviados

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Nas décadas de 1960 e 1970 do século 20 moraram no Morro do Tambor pessoas das quais mesmo querendo a gente nunca esquece

CUIABÁ – Quando o Morro do Tambor tinha poucas casas, muito verde, suas ruas eram de chão puro, com uma poeira que na subida da rua Major Gama era fina e amarelada, que grudava na pele como grude e no resto das ruas era espessa e avermelhada, onde a gente ouvia histórias de “assombrações” e tinha vizinhos com fama de virar Lobisomem, no final da década de 1960 e também na década de 1970 moraram na Rua São Cristóvão [antigamente chamada de Travessa das Flores] três homens já idosos naquela época, seo Gona, seo Zé Pinguela e seo Raul.

A partir da esquina com a Rua Major Gama, subindo a Rua São Cristóvão em direção à Caixa d’água, do lado direito, na esquina ficava a casa de seo Dito e dona Clara, fundo do quintal deles e de frente para a antiga Travessa das Flores era a casa de Aroldo “Leiteiro”, genro desse casal, que era casado com dona Lurdes [onde atualmente é uma distribuidora de revistas e jornais]. Ao lado da casa de Aroldo ficavam as três casas onde moravam o trio do título da matéria. Eram três casas humildes, pequenas, cujos quintais eram separados por arame farpado, com a arquitetura típica da Cuiabá antiga. Pela ordem, moravam, na primeira casa seo GONA não sei se era nome ou apelido, mas toda e qualquer pessoa o chamava assim. Era um senhor que morava sozinho, já bastante idoso, acho que mais de 50 anos naquela época, só com a companhia de uns dez ou doze cachorros que ele mantinha em sua casa praticamente em ruínas. A porta da sala, onde ele dormia, não tinha porta e sim um lençol velho pendurado como cortina, Não tinha luz elétrica e nem água encanada [nessa época, poucas casas tinham]. Ele cozinhava em um fogão feito com pedras, em latas de conservas o que ganhava de vizinhos e o que conseguia lá na feira do Porto onde ele ia pegar restos de alimentos.

Rua São Cristóvão, onde moraram seo Gona, Seo Zé Pinguela e seo Raul.  [Foto: Joacir H. de Amorim]

Nas décadas de 1960 e 1970, no inverno fazia muito frio em Cuiabá, principalmente no mês de junho, nos dias de São João (24) e São Pedro (29). Com a saúde debilitada pela pouca e má alimentação e ainda pelos poucos cuidados com a higiene, já que dormia junto com tantos cachorros, numa noite de frio intenso, não me recordo em qual ano, seo Gona não resistiu e amanheceu morto. Com seu dono morto, os cachorros foram sumindo um a um. Uns que estavam bem debilitados morreram, outros sumiram e alguns que estavam em boas condições físicas foram adotados por vizinhos. Nunca soube se seo Gona tinha algum parente em Cuiabá. Lembro-me que a casa em que ele morava ficou um tempão abandonada.

ZÉ PINGUELA, morava na casa do meio, ou na segunda casa. Ele simplesmente odiava o apelido e a gurizada adorava chama-lo por esse apelido. Não me recordo da esposa dele, mas que eu me lembre, ele tinha três filhos: Chico, Teca e Zé Bicudo. Parece-me que havia mais, uma moça, não me lembro bem. Ele era um excelente marceneiro. Tinha um enorme carrinho de madeira, construído por ele mesmo, com o qual ele vendia os móveis [mesas, cadeiras e armários] muito bons e bonitos de porta em porta por todo bairro Dom Aquino, Porto e o antigo Terceiro. Um dos que mais atazanavam a vida de Zé Pinguela era Nilo, irmão de Helena, Antonio “cu de boi” e João Coenga, o popular João Barra Suja, moradores da rua São Cristóvão, exatamente onde atualmente exite o edifício Caiabi. O apelido de Antonio é para diferenciar de outros Antônios da mesma época: Antonio “Macaco de bunda vermelha” e Antonio “Barranco”.

Era só ele passar por qualquer rua do Morro que a gurizada fazia o coro de “Zé Pinguela”, ele ficava furioso, mas não podia correr atrás por causa do carrinho com os moveis, mas prometia pegar depois. Subindo o Morro do Tambor no cruzamento das ruas Major Gama e São Cristóvão, do lado direito, havia um terreno baldio, cujo chão era piçarra. Um pó que pregava na pele e nem o Cão tirava. Ali, os meninos transformaram em um campinho que no final de tarde tinha jogo até ficar escuro e a gente não conseguir enxergar a bola. Nos fundos desse largo havia uma enorme valeta, que acho que era nascente de algum córrego muitos anos atrás, onde os moradores costumavam jogar lixo e animais mortos. Nas beiras dessa vala. nasceram arvores arcadas sobre o enorme buraco e nessas arvores tinham grossos cipós, onde os meninos balançavam de um lado para outro, brincando de TARZAN, o herói da época.

Num certo dia, depois de uma boa chuva, estava lá um bando de guris jogando “finca-finca” e, Nilo era um deles. Entretido, jogando, Nilo não percebeu seo Zé Pinguela subindo o morro. De longe, Zé Pinguela reconheceu Nilo entre a turma. Deixou o carro a uma certa distancia, embaixo de uma arvore e devagarinho chegou no bolo de gurizada e agarrou Nilo pelo braço, que não havia percebido sua chegada. Perguntou para Nilo: “Quem que é Zé Pinguela?“, Nilo, branco de susto e quase sem voz, conseguiu responder “Não é ninguém“.

Zé Pinguela ainda segurando o braço de Nilo perguntou de novo: “Você ainda vai me chamar de Sé Pinguela?”. Nilo mais que depressa, respondeu: “Não, senhor, eu juro“. Mas seo Zé sabia que era mentira, deu um cascudo [daqueles que mestre Bombledt aplicava nos meninos bagunceiros lá no Colégio dos Padres] e soltou Nilo. Nilo, saiu andando e coçando a cabeça e quando chegou a uma distancia segura, começou a bater com uma mão fechada na palma da outra mão aberta: É ZÉ PINGUELA MESMO…É ZÉ PINGUELA MESMO…

Onde está esse portão, era exatamente o lugar onde passava a vala mencionada na matéria.  [Foto: Joacir]
Na última ou terceira casa, morava seo RAUL, que era o mais velho do trio. Lembro-me que tinha tanto os cabelos como a barba grisalhos. Tinha uma esposa, que não me recordo o nome e era evangélica, andava quase sempre vestida de branco. Também lembro que eles tinham um filho chamado Ireno, que tinha mais ou menos a mesma idade que eu na época. Acredito que tanto seo Raul como seo Zé Pinguela fossem nordestinos, pelo que me recordo do sotaque deles.

Também acho que seo Raul possa ter sido agricultor quando mais jovem, pois havia muita planta e uma pequena horta muito bem cuidada no quintal dele. Seo Raul tinha um problema de saúde. Sofria com a Tuberculose e fazia tratamento no CENTRO DE SAÚDE DE CUIABÁ [atualmente é a CENTRAL DE REGULAÇÃO DE VAGAS] e não gostava de falar sobre esse problema. As vezes, a gente não podia nem tossir perto dele e ele já achava que estava tirando onda com a cara dele e o bicho pegava [tanto seo Raul, como Zé Pinguela tinham o costume de andar com uma faca na cintura, coisa muito comum naquela época] e apesar de ser vizinhos vivam às turras, discutiam toda hora, muitas vezes à toa. Certo dia, seo Raul amanheceu com a “macaca” e começou provocar Zé Pinguela, que era mais calmo, até que este se aborreceu e começaram a discutir. De repente, seo Raul se armou com sua faca e pulou pelo vão cerca de arame farpado para o lado de seo Zé Pinguela e foi em sua direção com a faca nas mãos.

Zé Pinguela correu no seu balcão de trabalhou e passou a mão num enorme facão e foi para cima de seo Raul que correu mais rápido que Ayrton Senna nos seus melhores momentos e como um raio passou pelo vão dos arames sem nem toca-los e só foi parar no seu quarto e com as portas trancadas. Bom que naquela época não se guardava raiva nem rancor de vizinhos e à noite os dois já estavam conversando normalmente, como se nada tivesse acontecido.

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