Futebol amador: De campo do Botafogo a mini estádio José de Oliveira Silva (Bife)

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Campinho à beira de uma grande vala no começo da década de 1980, tornou-se uma das principais área de lazer da Grande Morada da Serra

CUIABÁ/MT – No ano de 1981, a extinta COMPANHIA DE HABITAÇÃO POPULAR DE MATO GROSSO-COHAB/MT construiu e o Governo do Estado entregou a população cuiabana o núcleo residencial Morada da Serra II, popularmente chamado de CPA II. Em 05 de maio de 1981, foi fundada a Associação de Moradores do bairro CPA II, cujo primeiro presidente foi o senhor Sebastião Ferreira.

Senhor Júlio Albuquerque Gomes, 71 anos, morador antigo no bairro,  ex-presidente da Associação de Moradores e fundador do Real Madrid do CPA II. [Foto: Joacir Hermes de Amorim]

Em 1986, moradores do bairro, jovens, na sua maioria, percebendo que a área destinada para a construção de uma praça ou uma outra forma qualquer de lazer, estava abandonada e servindo de local de depósito de lixo e entulho e de esconderijo para marginais e usuários de drogas ilícitas. O senhor Júlio Albuquerque Gomes, 71 anos, morador dos mais antigos no bairro e presidente no período de abril de 1993 a abril de 1994, deu o seguinte depoimento: “O bairro foi entregue à população na gestão do governador Frederico Carlos Soares de Campos, através da Cohab/MT, e que os moradores construíram próximo ao local onde foi erguida a sede do Instituto dos Cegos de Mato Grosso, um pequeno campinho, ao lado de uma grande vala [talvez um córrego que secou], mas que pouco tempo depois foi aumentado e esse mesmo grupo que construiu esse campinho, fundou um time que, segundo seo Júlio, pelo fato de a maioria ser de torcedores do Flamengo, o líder desse grupo e idealizador da fundação desse time, Garcia, que atualmente é Professor de Educação Física, sugeriu ao grupo o nome Flamengo, porém os outros membros do time, só para zuar, escolheram o nome Botafogo, rival carioca do Flamengo, no Rio de Janeiro. A partir de então, o local passou a ser chamado de Campo do Botafogo“.

O senhor Júlio Albuquerque também veio a ser fundador e presidente da Associação Atlética Real Madrid em 21 de julho de 1981. Uma curiosidade é que os pais do jogador conhecido nacional e internacionalmente, Jael “O Cruel“, oriundo da Região da Grande Morada da Serra faziam parte do grupo que geria esse time do Real Madrid.

Na década de 1990, com a implantação do projeto da Prefeitura de Cuiabá que criou os mini estádios, o futebol amador teve um grande crescimento nas suas atividades. Em praticamente todos os bairros da Capital, campinhos foram transformados em mini estádios, com campo gramado, alambrado, arquibancadas de concreto e vestiários.

Campo de futebol que existiu na antiga sede da ASPEMAT, no bairro CPA I, que contava com arquibancada de Concreto. [Foto: Joacir Hermes de Amorim]

Na Região da Grande Morada da Serra, havia vários campinhos de futebol famosos e muito frequentados pelos moradores em dias de jogos. No CPA I, ao lado de onde está localizado o Terminal de Embarque e Desembarque de Passageiros, foi construído o primeiro dos mini estádio pela Prefeitura de Cuiabá. Porém, ainda no  CPA I, na sede social da Associação de Servidores Públicos de Mato Grosso/ASPEMAT, que depois mudaria para Federação de Servidores Públicos de Mato Grosso/FEESP-MT, já havia um campo de tamanho oficial, que inclusive contava com arquibancada de um dos lado do campo. Esse local foi entregue em regime de comodato, pelo período de 30 anos, ao Grupo Pereira, controlador dos Hipermercados COMPER, inaugurado em fevereiro de 2015. Uma nova sede para a Federação, que seria construída no prazo de quatro meses com recursos do Grupo Pereira, foi construída pela própria FEESP e durou mais de dois anos para concluir a construção e até a presente data ainda, a nova sede social da FEESP/MT não foi inaugurada.

Além desses três campos acima mencionados, havia também campinhos nos bairros Centro América, que era localizado atrás da Igreja Católica, e  que acabou quando a igreja aumentou a parte dos fundos e murou praticamente toda a extensão desse campo. No bairro Tancredo Neves também havia um campinho, que deixou de existir quando em seu lugar foi construída a Escola Municipal Octayde Jorge. Era chamado de Campo do Palestino. No bairro Morada do Ouro II, também havia um campinho que era utilizado tanto pela comunidade do Tancredo Neves, quanto da Morada do Ouro II, que também deixou de existir quando construíram exatamente nesse lugar a Unidade de Pronto Atendimento/UPA da Morada do Ouro. No bairro Bela Vista existia dois campos de futebol, o do América e o da Escolinha Águia do Norte, do professor Suail.

Em bairros que surgiram após a entregue dos Conjuntos Habitacionais Morada da Serra, como Jardim Vitória, Jardim Florianópolis e Novo Paraíso receberam o beneficio dos mini estádios. No ano de 1993, eram disputadas várias competições no mini estádio do CPA I, como por exemplo, o Campeonato Amador de Futebol Sênior da Morada da Serra, que contou com as seguintes equipes: Bandeirantes, Gente Nossa, Grêmio Recreativo Corpo de Bombeiros, Lavrinha, E. C. Tubarão, Floresta, Internacional, Nacional, Olímpico e Dom Aquino. O Campeonato Amador da Morada da Serra, organizado pelo Departamento de Esporte Amador, que contou com as seguintes equipes: Olímpico, América, Real Madrid, Colorado, Atlético da Morada da Serra, Auriverde, Unidos do Setor V, Grenac, Atlético da Morada do Ouro, Leãozinho, Curió, Novo Paraíso e Assofama. E também o 1º Campeonato de Quarentão, promovido pelo Departamento Independente de Futebol Quarentão da Morada da Serra, com as seguintes equipes: Florestão, Unidos do Campinho, Magnata, Encol, Assincra e União.

Hélio Leite de Moura, 66 anos, morador raiz do bairro CPA II, ex-Diretor de Esportes e atual presidente do bairro CPA II. [Foto: Joacir Hermes de Amorim]

Hélio Leite de Moura, 66 anos, morador do bairro CPA II, desde a entrega das chaves pela extinta COAHB/MT, atual presidente, eleito em outubro de 2019, também falou sobre a área de lazer: “Em 1981, quando a COAHB entregou as casas para a população, a local destinado a ser a área de lazer do bairro ficou quatro ou cinco anos abandonada, era só mato, servindo, inclusive, de esconderijos para marginais e os moradores resolveram tomar uma providencia. Vários moradores, jovens na época, limparam uma pedaço dessa área e ali fizeram um campinho de futebol, que passou a ser o principal entretenimento dos moradores nos fins de semana“.

Hélio, contou ainda que “Um, na época, jovem morador chamado Garcia, nos dias atuais professor de Educação Física formado na Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT, teve a ideia de fundar um time de futebol e que certa feita, a caminho de um jogo em uma localidade próxima de Cuiabá, resolveu, colocar nome no time. E como Rubro Negro fervoroso, claro, sugeriu Flamengo. Mas o restante dos componentes do time, só para sacanear o flamenguista, escolheram o nome BOTAFOGO, ferrenho rival do rubro-negro carioca“. 

E como esse time batizado Botafogo, mandava seus jogos nesse campinho localizado nas margens da Avenida Brasil, o local ficou conhecido como CAMPO DO BOTAFOGO. que viria a ser transformado em mini estádio, batizado com o nome José da Silva Oliveira (Bife), em homenagem a um dos maiores nomes do futebol mato-grossense. Nos últimos cinco anos foram realizadas várias competições importantes do esporte amador em Cuiabá, como o Torneio dos Trabalhadores (1º de maio); Torneio em comemoração ao aniversário de Cuiabá (8 de abril) e Torneio da Independência (7 de setembro) e também as Copas Desafio das Estrelas e Supercopa Desafio das Estrelas.

Atualmente existem apenas três equipes em atividade nos bairros CPA I e II. SEDE da Família Rondon; Trivial Esportes de Marcelo Trivial e Buiu (irmão de Clebinho, ex-jogador do Mixto) e o Garra Futebol Clube, comandado por saudoso Hulk, falecido não faz muito tempo e Vanildo, mais conhecido como “Jaburu“. 

Já há bastante tempo, nos sábados de carnaval, são realizado jogos beneficentes (com arrecadação de alimentos não perecíveis para ser doados para a população mais carente), em que os times das Piranhas enfrenta o time dos Garanhões. Os  jogos são realizados com os jogadores dos dois times vestidos em trajes femininos. Os times das Piranhas é formados por ex atletas profissionais que ainda batem sua bolinha e o time dos garanhões por moradores dos bairros CPA I e II. Este ano, não houve carnaval e nem esse jogo, por causa da pandemia de Corona vírus que assola o mundo todo.

Hélio Moura lembrou ainda que aconteceram alguns casos pitorescos envolvendo o Campo do Botafogo. Ele lembrou que “Mais ou menos por volta de metade da década de 1980, não se lembra o ano exato, em um fim de semana foi até ao Campo do Botafogo e o encontrou todo demarcado com estacas e linhas. Uma empresa, não lembra mais do nome dela, havia loteado o terreno e iria construir no local o empreendimento CPA PRAIA CLUBE. Um loteamento em que até carnês já estavam sendo vendidos“.

Hélio contou ainda que “Ele e alguns colegas arrancaram toda marcação e estavam nivelando o campo novamente para poder jogar no final de semana seguinte, quando um representante da empresa chegou no local e começou a debater com quem estava trabalhando no local. Houve bate boca e um dos que estavam ali trabalhando no campo, chegou a dar  uns tapas nessa pessoa, que se retirou às pressas do local. Esse fato acabou sendo resolvido na Justiça, que felizmente emitiu ordem judicial destinando o local para continuar servindo de área de laser para os moradores do bairro CPA II“.

Outro fato interessante ocorrido envolvendo o Campo do Botafogo, foi que a filha de um senhor que morava em uma casa de madeira próximo ao campinho, resolveu murar o que considerava como de propriedade desse senhor. Esse muro, dificultava e muito para os moradores quando iam usar o campo. Ele que nessa época era Diretor de Esportes da Associação de Moradores, procurou e conversou com essa senhora e não obteve um resultado favorável aos moradores, então alertou aos pedreiros que estavam construindo o muro, para que cessassem a obra, no que não foi atendido. Então voltou até o local numa hora em não estavam trabalhando e derrubou toda a construção. Depois disso, houve muita discussão, praticamente o dia todo, tendo sido necessária a intervenção da Policia Militar, que conduziu todos os envolvidos para uma Delegacia de Policia.

Hélio, então recorreu à Secretaria Estadual de Meio Ambiente/SEMA, que embargou a obra, porque o pessoal não possuíam Licença Ambiental para construir ali naquele lugar, que pertence ao Estado e estava destinado à construção de uma praça ou uma outra área de lazer para os moradores. De 2020 para cá as atividades no mini estádio do CPA II estão suspensas, devido á pandemia de Corona vírus.

Fotos: 1ª e 2ª, Casa que havia no mesmo terreno do  Campo  do Botafogo.  3ª e  4ª, lances de partidas pela Supercopa Desafio  das  Estrelas,  no  ano  de  2015. [Acervo particular de Joacir Hermes de Amorim] 

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