Enfim, é aceitar que dói menos. O fim do futebol profissional de Cuiabá

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Para que é das épocas do Dutrinha, Verdão e conhece a história do futebol cuiabano jogado no Campo D’Ourique e no Largo do Arsenal, vê o estágio atual do futebol cuiabano, dói na lama

CUIABÁ – Bons tempos aqueles em que os cuiabanos lotavam nas tardes de domingo, o Campo D’Ourique e depois as  laterais do Campo do Comércio e sob a sombra das arvores do Bosque Municipal assistiam jogos entre o Internacional do bairro do Porto  Cuiabá Futebol Clube; Tupy Futebol Clube também do bairro do Porto X Tiradentes Futebol Clube da Cidade [como era chamado o Centro Histórico naquela época], entre 1913 e 1918. Nos anos da década de 1930 do século 20, foi inaugurado o Busque Municipal, onde seria construído o Colégio Liceu Cuiabano e nos fundos deste, o Campo do Comércio, que seria o primeiro estádio de futebol, de fato, que a cidade possuiu e que foi uma realização do desportista Manoel Soares de Campos e sua diretoria.

Mixto, em jogo no estádio do Liceu Cuiabano no ano de 1947.  [Acervo: Glauco Marcelo]

O estádio que tinha o portão principal na Rua Cândido Mariano esquina com o Bosque Municipal [atualmente Praça Santos Dumont], tinha um gramado muito bom e uma pequena arquibancada de concreto em que a torcida ficava com as costas voltadas para a Rua Getúlio Vargas [antiga Rua Poconé], vestiários, bares, sanitários e um pequeno alambrado. Nessa fase romântica em que o futebol cuiabano era amador disputavam o Campeonato Cuiabano os seguintes times: Comércio Esporte Clube, Paulistano Futebol Clube, Clube Esportivo Dom Bosco, Americano Futebol Clube, Associação Atlética Tipográfica e Destemido Futebol Clube. O Mixto Esporte Clube que só possuía time de Volei e basquete, organizou um time time de futebol e começou a disputar as competições realizadas pela Liga Esportiva Cuiabana [na época ainda não existia a Federação Mato-grossense de Desportos]. Um pouco depois de começadas essas disputas surgiram os times Estado Novo e o Santo Antonio, que substituiu o Destemidos.

Para ser construído o prédio do Liceu Cuiabano houve uma pequena paralisação nas disputas dos Campeonatos Cuiabanos. As dificuldades encontradas para a utilização do estadio do Liceu Cuiabano à época levou o presidente da Federação Mato-grossense de Desportos, Lenine Póvoas, a providenciar a construção de um novo estádio, que foi viabilizado com a posse do cuiabano General do Exército Eurico Gaspar Dutra na presidência do pais. O General Dutra mandou para Cuiabá, dinheiro suficiente para que fosse construído um estádio do porte do Maracanã do Rio de Janeiro, de tamanho menor. Mas bem ao feitio do que sucede atualmente, a maior parte do dinheiro foi roubado e só construíram o que vemos nos dias atuais, abandonado e caindo aos pedaços. Em 1953, convidado a vir inaugurar a obra, ao chegar o General não gostou do que viu e recusou-se a inaugura-lo, retornando imediatamente para a Capital Federal. As equipes do Paulistano, Destemidos e Associação Atlética Tipográfica, extintas, não disputaram mais os Campeonatos de Cuiabá. Em compensação, surgiram novos times, como o Clube Atlético Mato-grossense, XV de Novembro Esporte Clube do bairro da Lagoa, na região do Porto, o Boa Vista Esporte Clube e o São Cristóvão Futebol Clube. O que ficou mais famoso dentre esses foi o Clube Atlético Mato-grossense várias vezes campeão cuiabano.

O Palmeiras Esporte Clube fundado em 1948, mas que só disputava campeonatos juvenis, ascendeu para o campeonato principal e também o Clube Esportivo Operário Várzea-grandense, fundado no ano anterior, 1952, também entrou nas disputas.

Estádio Presidente Dutra em dia de clássico, lotado. no ano de 1973.  [Divulgação]

Com a profissionalização do futebol cuiabano no ano de 1967, e o crescimento continuo no número de torcedores que compareciam aos jogos, o Dutrinha começou a mostrar-se “acanhado” para as disputas de campeonatos profissional, ficando evidente que Cuiabá carecia de um novo estádio. Ficou mais evidente ainda, quando em 1969, o Santos Futebol Clube veio jogar uma partida amistosa contra o Clube Esportivo Dom Bosco com Pelé, Gilmar, Coutinho e Pepe e às 14 horas teve que fechar os portões do Dutrinha superlotado e com milhares de torcedores esperando para entrar. Quando o governador Pedro Pedrossian inaugurou o estádio Morenão na cidade de Campo Grande e logo em seguida a Confederação Brasileira de Desportos/CBD, anunciou vaga para Mato Grosso no Campeonato Brasileiro de 1973 e que consequentemente ficaria para um dos times de Campo Grande, o escolhido foi o Esporte Clube Comercial, a Federação Mato-grossense de Desportos/FMD, viu-se obrigada a agilizar a construção de um estádio, no minimo, no mesmo nível do de Campo Grande.

O Verdão foi construído e pré inaugurado no dia 08 de abril de 1975, com um jogo entre Fluminense do Rio de Janeiro e uma Seleção de Cuiabá, vencido pelo time carioca, com um gol do artilheiro do Comercial no Brasileirão de 1973, o primeiro gol marcado no estádio. O time carioca era chamado de Máquina Tricolor pelos grandes carques do futebol brasileiro que haviam sido contratados pelo presidente tricolor, Francisco Horta. Pescuma [ex-São Paulo, Coretiba e Portuguesa-SP], Marco Antonio [ex-Vasco-RJ], Zé Mário [ex-Flamengo], Rivelino [ex-Corinthians-SP], Gil, Doval [ex-Flamengo-RJ], Mário Sérgio [ex-Flamengo-RJ e Vitória-BA].

Rivelino e Mário Sergio, que fizeram parte da Máquina Tricolor de 1975 que fez a pré-inauguração do Verdão.   [Revista Placar-1975]

Bom mesmo foi a rivalidade que houve com a participações dos times de Campo Grande nos Campeonatos que passaram a ser denominados: MATO-GROSSENSE. Já no primeiro semestre do anos de 1973, houve a disputa do Torneio Incentivo Integração, com as presenças de Operário Futebol Clube, Esporte Clube Comercial e da Sociedade Esportiva Industriária-S.E.I., montado unica e exclusivamente para a disputa desse torneio. Foram realmente jogos inesquecíveis, que contou com a cobertura da revista esportiva Placar e teve jogos incluídos na Loteria Esportiva, da Caixa Econômica Federal. Mixto e Operário de Campo Grande fizeram a final desse torneio e o Mixto foi o grande CAMPEÃO. Entre 1971 e 1975, houve vários jogos amistosos contra times de outros Estados, como Flamengo e América do Rio de Janeiro, Atlético e América e Vila Nova de Minas Gerais, Guarani-SP, Seleção do Paraguai e até o Zeljeznicar [Ferroviários] da antiga Iugoslávia.

A partir de 1976, começou a Era de Ouro do futebol de Mato Grosso, com a inclusão de um time de Cuiabá no Campeonato Brasileiro. O Comercial de Campo Grande disputou em 1973, Operário também de Campo Grande em 1974 e de novo o Comercial em 1975. Aí, a CBD abriu mais uma vaga para um time de Cuiabá. Ficou decidido que, Mixto e Operário-VG, por terem mais torcida, disputariam a vaga e essa partida também foi válida pelo 2º turno do Estadual de 1976. Rubens dos Santos montou uma verdadeira seleção, um timaço, queria a qualquer custo o Operário no Nacional. Para reforçar um time que já tinha Mosca e Gilson Lira e Carlos Pedras no gol, trouxe Paulo Vitor do Brasília [goleiro], Polaco, zagueiro do Juventus-SP, Lázaro, lateral esquerdo e Humberto, médio volante do Paulista-SP, Nelson Lopes, meia armador do Coretiba-PR, Pelézinho que estava no União de Rondonópolis, Tadeu Macrini, centro avante do Operário de Campo Grande e Wilsinho, meia armador e ponta esquerda do Marília-SP. A seleção tricolor era: Carlos; Paulinho, Polaco, Miro e Lázaro; Humberto, Nelson Lopes e Mosca; Pelezinho, Tadeu Macrini e Wilsinho. O Mixto, sem dinheiro, entrou com um time modesto, caseiro. Bola rolando e o primeiro tempo terminou com o Operário vencendo por dois a um. No segundo tempo, o treinador do Mixto colocou em campo, o ponta direita Tuta. Com o joelho estourado, sem condições de jogo, ficou em campo apenas dez minutos, tempo suficiente para marcar um gol e dar o passe para o gol da vitória e que confirmou o Mixto no Brasileirão pela primeira vez, tornando-se eterno ídolo da torcida alvinegra.

C.E.O.V. ( 1976)- EM PÉ – Adalberto, Carlos Pedras, Lázaro,Miro, Joílson e Carlos Victor. AGACHADOS – Odenir, Mosca,  Adavilson  Pelezinho,  Humberto  e Adilson. Nesta foto faltam: Polaco, Nelson Lopes, Tadeu Macrini e Wilsinho, titulares no jogo histórico contra o Mixto.

Depois vieram a ACADEMIA DE FUTEBOL ALVICELESTE, o Dom Bosco de 1977 a 1979 e os anos da década de 1980 e 1990, quando o futebol da Capital teve boas participações no Campeonato Brasileiro, até por conta da hegemonia conquistada pelos time do interior como o Juventude de Primavera do Leste, Sinop, Luverdense e a fundação nos anos 2000 do Cuiabá Esporte Clube, pelo ex-jogador Luiz Carlos Tófolli, o Gaucho. Infelizmente, a fase atual do Cuiabá, que está na Série B [segunda divisão nacional] é ruim e o sonho de fazer parte da elite nacional novamente, parece cada vez mais distante. Os baluartes e abnegados do futebol cuiabano morreram, Rubens dos Santos e Branco de Barros, Lino Miranda e Ranulfo Paes de Barros, Joaquim de Assis e Paulo Borges e o futebol cuiabano também morreu. É A VERDADE, INFELIZMENTE!!!

Primeiro jogo da Seleção Brasileira em Cuiabá: Brasil X Suíça, no ano de 1981.  [Divulgação]
Gol olímpico de Pelezinho, contra o Vasco da Gama, pelo Campeonato Brasileiro de 1976, no Verdão.  [DC]
Timaço  do  Palmeiras   montado  por   Délio  de   Oliveira  em   1974,  que  foi  o 3º colocado  no   Campeonato Mato-grossense. [Divulgação]
1948, Torneio Início disputado no Campo do Liceu Cuiabano.  [Divulgação]
Mixto x Flamengo, no Verdão em 1976. Zico, Pastoril, Geraldo e Rômulo e ao fundo Bife.  [Divulgação]

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