Dom Aquino/Morro do Tambor: Personagens Folclóricos de Minha Infância

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Uma pena que esse hábito acabou, da mesma forma que estão se acabando todas as tradições cuiabanas
CUIABÁ/MT – Como já afirmei em matérias anteriores, nasci na Rua Comendador Henrique e, aos meus oito meses de vida, minha família mudou-se para a Rua Major Gama [endereço que, aliás, pertence à minha família até aos dias atuais]. Entre a metade da década de 1960 [1965] e o final da década de 1990 [1998], já que considero esse período como minha infância, adolescência e juventude, já que à partir dos 40 anos já se é um senhor de meia idade, ouvia das pessoas de mais idade, estórias sobre personagens folclóricos, que muito se ouvia naqueles tempos passados, a respeitos de Bruxas, Lobisomens, Mula Sem Cabeça, Negrinho d’Água, Pé de Garrafa, Assombrações, Boi Tatatá e Minhocão do Pari.
Minha tia Ana [Imá] é essa senhora, a primeira sentada do lado esquerdo da foto, ao lado de minha mãe Agripina. [Foto: acervo de Joacir Hermes de Amorim. Todos os direitos reservados]
Desde menino, ouvia muitas vezes os mais antigos, em especial minha tia Ana Arruda [Tia Imá], que morava em São Pedro de Jatobá, nas proximidades de Barão de Melgaço e era exímia contadora de c, quando ela vinha à Cuiabá e passava uns dias hospedada na casa de minha mãe, estórias sobre esses personagens acima citados. As Bruxas seriam em consequência de que se um casal tivesse sete filhos e todos fossem do sexo feminino, a sétima criança seria Bruxa; o Lobisomem também seria em consequência de que da mesma forma, um casal tivesse sete filhos, todos homens, o sétimo seria Lobisomem; a Mula Sem Cabeça teria sido uma mulher que teria vivido maritalmente com um padre [quando era menino e ia a algum lugar com outros colegas, alguém saia correndo e gritava: “Quem chegar por último é mulher de padre” e aí a gente botava os bofes para fora para não chegar por último]; Negrinho D’Água seria uma versão do Saci Pererê, porém teria as duas pernas. Ele teria o hábito de assustar e as pessoas e roubar peixes dos pescadores.
Nessa calçada de nossa antiga casa é que ficávamos até tarde da noite ouvindo as estórias de tia Imã. [Foto: acervo de Joacir Hermes de Amorim. Todos os direitos reservados]
O Pé de Garrafa teria sido um homem que vivia sozinho com sua mãe e a teria estuprado e por isso teria sido amaldiçoado por ela e em consequência teria virado uma espécie de bicho. Sua aparência seria a de um homem muito alto, cerca de 2,5 m, barbudo e cabeludo e seus pés seriam deformados. Teriam a forma arredondada em forma do fundo de uma garrafa, daí o nome: Pé de Garrafa. O Minhocão do Pari este ser mítico é o Monstro do Lago Ness de Cuiabá. Relatos dos mais antigos atestam que um ser em forma de uma cobra gigante, com cerca de 20 metros de cumprimento e dois de diâmetro, morava nas profundezas do rio e atacava pescadores e banhistas. A lenda percorre toda extensão do rio e foi passada de boca a boca pelos mais velhos. Boitatá, o nome quer dizer “cobra de fogo” (boia = cobra / atatá = fogo). É uma cobra transparente que pega fogo como se queimasse por dentro. É um fogo azulado. Sua aparição é maior em locais como o Pantanal, onde o fenômeno de fogo fátuo é mais comum. Esse fenômeno se dá por conta da combustão espontânea de gases emanados de cadáveres e pântanos. 
Sinto uma saudade imensa dessa época, em que a gente ficava sentado na porta de casa, até altas horas da noite ouvindo essas estórias e depois ia dormir morrendo de medo. Uma pena que esse hábito morreu junto com o passamento das pessoas mais antigas. Minha tia Ana [Imá] é essa senhora sentada, a primeira do lado esquerdo da foto e era nessa calçada de nossa antiga casa que sentávamos para ouvir os casos contados por titia Imá.
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