Dom Aquino/Morro do Tambor: Becos de Cuiabá

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Beco Quente, Beco Sujo, Beco do Urubu, Beco do Candieiro…

CUIABÁ/MT – A arquitetura cuiabana é fantástica. O que resta dela no Centro Histórico e em alguns bairros mais antigos nos dá uma noção do que foi a cidade de sua fundação até a década de 1970. Uma cidade que não foi planejada e por esse motivo sempre foi linda com suas ruas estreitas, vielas e …Becos.
Há, os becos!!!
Existiram vários. Alguns não existem mais.
O Beco do Candieiro, no Centro Histórico de Cuiabá, é o mais conhecido e tristemente famoso, por causa da chacina ocorrida no local, da prostituição e do tráfico de drogas. Não muito distante desse beco, fica outro, o Beco de Cabo Agostinho. Há um também atrás do prédio do Ganha Tempo [não sei se tem nome].
No mais que tradicional bairro do Porto, havia quatro e sobraram dois. O mais famoso, o Beco da Lama, atual Rua Comandante Soído e o Beco da Marinha. O Beco Quente ou Beco da Confusão e o Beco Sujo ou Beco do Cotovelo não existem mais. Ainda na região do bairro do Porto, existe o Beco do Sovaco, a rua que fica atrás da Igreja São Gonçalo do Porto.
O bairro Dom Aquino também teve seus becos. O famoso Beco do Urubu [onde nasceu o ex-deputado estadual e atual Conselheiro do TJ, Guilherme Maluf] que é o trecho da rua Comendador Henrique entre a antiga Rua Nova ou Rua do Pescador e atual Avenida Dom Aquino até a Rua Professor José Estevão Corrêa [em frente a residência de Ramis Bucair].
O Beco do Grupinho, trecho da Rua São Cristóvão até em frente ao portão de entrada da escola Maria Elisa Bocaiuva Corrêa da Costa. Em uma das casas desse beco, morou o casal seo Euclides e dona Judite pais do apresentador de TV João Oliveira, no Morro do  Tambor.
Entre a Rua da Prainha, atual Avenida Tenente Coronel Duarte e a Rua Pimenta Bueno, existe o Beco do IAPI, atual Travessa Silva Pontes, onde por muitos anos residiu o servidor da Educação Municipal [trabalhou muito tempo na Escola Professora Tereza Lobo] Marcondes, o popular Nhôgo que foi jogador profissional de futebol tendo jogado no Campinas Esporte Clube, time profissional do bairro Dom Aquino, que teve sede na rua Pimenta Bueno e nas Rua das Flores, atualmente chamada de Rua Irmã Elvira Paris.
Sobre os becos em Cuiabá, a jornalista Neila Barreto diz que:
Pelas bandas do bairro do Porto, temos o “Beco Quente” que outrora era habitado por famílias importantes, negociantes abastados, na maioria vindos de Nossa Senhora do Livramento-MT, de prole numerosa, e chefes políticos de muito prestígio, entre os quais o coronel Antônio Leite de Barros que chegou à governança do Estado, conforme memórias da professora Dunga Rodrigues. Pobre Beco! Foi engolido pelas obras da Avenida Beira Rio. Hoje Travessa Comandante Balduino, mas, a população continua a chamar Beco Quente.
O Beco da Marinha ou do Zé do Carmo que dava acesso ao Arsenal da Marinha, hoje SESC Arsenal. Iniciava na esquina do antigo Arsenal e ia até a Praça Couto de Magalhães, hoje Rua Comandante Soído. Nesse beco possui uma capelinha em homenagem ao José do Carmo que ali foi assassinado. E sabe qual o nome lembrado? Beco do Arsenal!
O Beco Sujo ou Beco do Cotovelo onde a vadiagem se alojava, justamente na antiga e atual zona do meretrício. A câmara municipal de Cuiabá designou esse Beco de Rua Tufic Affi, mas, a população cuiabana continua chamando de “Beco Sujo”. A identidade de um povo precisa ser preservada. É preciso valorizar as coisas, pessoas, os tempos, da cuiabanidade.
Beco do Sovaco, atrás da Igreja São Gonçalo. A câmara municipal, conforme Rubens de Mendonça, deu o nome de Major Firmo Rodrigues, mas a sua filha professora Dunga Rodrigues achou e com razão que o nome do ilustre historiador merecia registro em outro logradouro público. Dunga retirou a placa com o nome do seu pai do local, no que Rubens de Mendonça, concordou e, eu também.
O Beco Alto que, apesar de ser denominado Travessa dos Bandeirantes, continua Beco Alto. Beco do Candeeiro, um dos mais antigos de Cuiabá que escapou dessas denominações que a população abomina por não serem consultadas, localizado no centro histórico de Cuiabá. Próximo a esse beco foi reformada a Praça Eufrosina Hugueney. Após a reforma, do nada colocaram uma placa com o nome de Praça Senhor dos Passos, pode? E Eufrosina Hugueney para onde foi parar? A primeira comerciante mulher, em Cuiabá!
O Beco Largo que desapareceu para dar vazão e construção da Avenida Presidente Getúlio Vargas, chamada antigamente de Avenida Murtinho, começava na Praça Alencastro e ia até a Rua Comandante Costa. Hoje essa avenida chega até próximo à Praça 8 de Abril, no bairro Goiabeiras.
Beco do Matadouro localizado atrás da Casa Orlando. Começava na rua Galdino Pimentel, na esquina da Casa Orlando até a Rua Tenente Coronel Duarte, a Prainha. Esse matadouro poluía todas as águas do ribeirão prainha, por isso dele a população, de sua água, evitava beber. Abastecia das bicas, fontes e chafarizes. A professora Dunga Rodrigues conta que nesse beco faleceu um índio chamado Indulipé, branco, sardento de olhos claros, tido como filho bastardo do Cel. Percy Fawcett, desaparecido nos sertões mato-grossenses, que aí fora assassinado. O Coronel Percy Harrison Fawcett foi um arqueólogo e explorador britânico que desapareceu em Mato Grosso, ao organizar uma expedição para procurar por uma civilização perdida na Serra do Roncador, em Barra do Garças-MT.
E ainda, temos tantos Becos, cada um contando a sua história, contando a história do crescimento do urbano da cidade de Cuiabá como: Beco sem saída, Beco do Taquaral, Beco do Gê, Beco da polícia, Beco do Quartel, Beco do Caetano, Beco do Costa Campos, Beco do Colégio, Beco do Urubu, Beco da Sea Blandina, Beco de João Lopes, Beco da Câmara, Beco do Bom Despacho (hoje fechado), Beco do Ponce, Beco do Xixo, Beco do Largo (hoje Avenida Presidente Getúlio Vargas), Bequinho da Botica, Beco do Guarda ou Beco do Palácio, Beco do Cabo Agostinho, Beco Torto, Beco Alto ou Beco do Rola Boi, entre outros, alguns já desaparecidos da cidade.
Para Lenine de Campos Póvoas, as ruas estreitas da Cuiabá colonial, “é inteligência lusitana, aliada à experiência árabe”, pois quem já visitou os países da África, que sofreram influência da cultura árabe, sabe que as ruas estreitas são uma defesa contra o calor. “ Traçadas quase sempre transversalmente ao aparente percurso do “astro rei”, só não estão beneficiadas pelas sombras nas horas do sol a pino. Nas demais horas do dia estão ensombradas, de um lado ou de outro”. Essa técnica, também, chegou em Cuiabá dos séculos XVIII e XIX. Daí nossas ruas estreitas e becos.
Dessa forma, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, como instituição cultural mais longeva, está apto para em parceria com esses poderes públicos, órgãos públicos, privados encampar essa preservação da memória de nossos vultos históricos e da memória da urbanização da cidade, nos logradouros públicos da capital.
O IHGMT encontra-se localizado à Rua Barão de Melgaço, centro de Cuiabá e, é abraçado pela Casa Barão de Melgaço, na capital. Atende nas segundas-feiras, terças-feiras, quartas-feiras, no horário de 08:00 às 11:00 horas. https://www.ihgmt.com.br/
(*) NEILA BARRETO é jornalista, escritora, historiadora, Mestre em História, membro da AML e do IHGMT e escreve às sextas-feiras para HiperNotícias e para o “A imprensa de Cuiabá”. E-mail: neila.barreto@hotmail.com
Em Várzea Grande, existiu o Beco do Porrete, que se não me engano ficava onde é a atual Praça Aquidabã, no bairro Cristo Rei. Fotos: 1) Beco do Candieiro; 2) Beco da Lama; 3) Beco Quente ou Beco da Confusão; 4) Rua Tufic Affi, onde no século passado foi o Beco Sujo/Beco do Cotovelo e 5) O Beco do Grupinho, no Morro do Tambor. [As imagens são de reprodução/divulgação na internet, menos as fotos número 2 e número 5, do acervo pessoal de Joacir Hermes].
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